Telas

100% das mães cujas crianças estão em nosso projeto de contraturno relatam o uso contínuo, pelos filhos, das tais telas, em suas mais variadas formas de distração – jogos, desenhos, vídeos ou redes sociais. Varia também o tempo de uso – de poucas a muitas horas diárias, conforme a possibilidade de controle de cada família.

Irritação e insistência – eis os típicos sinais da abstinência. Abstinência – eis o típico sinal da dependência.

Se agora, ao menos nos Estados Unidos, as biliardárias companhias de tecnologia começam a ser chamadas para indenizar as sequelas do vício que produzem¹, é de se perguntar se, quanto mais carente uma família, maior será a exposição de suas crianças terão à toxicidade desses produtos – e mais esfrangalhada estará sua saúde mental, perpetuando o abismo da desigualdade social.

É de se perguntar, também, se, no caso das mães que, além de estarem sozinhas, encontram-se sob severo desamparo material, não seriam essas telas o único de meio de propiciar algum tipo de lazer, ainda que de péssima qualidade, a crianças que, não raro, passam boa parte do dia sozinhas.

É difícil exigir controle e atenção quando a ausência se faz necessária para a própria sobrevivência – e não é outro o princípio que inspira as iniciativas educacionais do nosso Coletivo: amparar quem necessita de amparo, oferecendo o que é preciso e afastando o que prejudica.

O contraturno é bem mais do que um projeto com fins pedagógicos – é uma necessidade para que se mantenha a própria sanidade de quem está mais vulnerável à prisão infinita dessas telas.

Thaís Cassapian

¹Folha de S. Paulo, edição de 26.03.26, “Meta e Google são condenados em caso histórico sobre vício em rede social nos EUA”

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