Conhecer

No câncer de pulmão, o diagnóstico precoce costuma ser a diferença entre a vida e a morte – sem falar da possibilidade de se evitarem tratamentos caros, prolongados e extremamente dolorosos (como se dá quando a doença é percebida em estágios mais adiantados)¹.

Mas entender antes para sofrer menos depois não é algo de inestimável valor apenas para a saúde física: nos espectros mais leves do autismo, é comum que haja alguma dificuldade para se diagnosticar o problema, o que leva a crianças e, em especial, adolescentes a desenvolverem ansiedade e depressão – consequências da tortura emocional sofrida por quem, em grupos sociais nem sempre clementes, não entende nem se faz entender na complexidade dos jogos sociais. Bullying, padecimento emocional intenso e evasão escolar são uma apenas uma parte do inferno que se vive quando sequer há um diagnóstico².

É esperável que essas dificuldades sejam ainda maiores para quem vive a carência material – e parece não haver mais dúvida de que fatores como alimentação, moradia e proteção social influem mais nos desfechos de saúde do que qualquer outra condição (como até mesmo a maior disponbilidade de serviços de saúde)³.

Também faz parte de nosso compromisso identificar, o mais breve possível, eventuais dificuldades de nossas crianças, que demandem o encaminhamento para exames mais apurados e eventual diagnóstico (o que em um contexto sem apoio material, sabemos, torna-se quase impossível).

Conhecer nem sempre significa a cura automática, mas conhecer-se é o começo de tudo – inclusive do bem que podemos fazer e que haverá de nos curar.

Thaís Cassapian

¹Folha de S. Paulo, edição de 02.04.26, matéria intitulada “Inca anuncia estudo para levar rastreio do câncer de pulmão ao SUS”.

²Folha de S. Paulo, edição de 02.04.26, matéria intitulada “Diagnóstico tardio de autismo cresce com maior entendimento do tema”.

³Folha de S. Paulo, edição de 07.04.26, matéria intitulada “Determinantes sociais exigem ação além da saúde, diz diretor das OMS”.

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