Olhares

Esse será um assunto em que a polêmica deixará de existir: o êxito de qualquer projeto educacional terá por pressuposto a conjugação de diferentes políticas de atendimento às famílias – e deixará de ser o simples olhar isolado da performance do professor em face de algum resultado genérico de aprendizado.

José Weinstein, que foi ministro da Cultura do Chile, anota que a gestão escolar vai bem além dessa burocracia do ensino¹. E no Chile, que tem se saído bem melhor do que nós em termos de formação educacional, os professores melhor remunerados são os que trabalham nas áreas mais carentes. Eis um olhar bem óbvio: é esperável que o profissional que enfrente mais desafios seja o mais reconhecido.

Mas reconhecimento é algo que também está longe quando o desafio é entender o contexto familiar de nossos estudantes: em uma sociedade em que a mulher, em linhas gerais, é 20% pior remunerada do que os homens, e em que as responsabilidades de cuidado com os filhos são olhadas como dever automático de sua própria existência (ao passo que os pais, quando exercitam esses mesmos deveres, são tidos por heróis²), pouca atenção se dá à saúde mental das mães.

É surpreendente que não haja um olhar prioritário para isso. Sabe-se, por exemplo, que crianças cujas mães possuem sintomas de depressão apresentam quase o dobro de atrasos em seu desenvolvimento (9% em casos sem tal quadro contra 17% nos casos que a depressão materna está presente³). Pior: como tudo o que se vê na área da saúde, a tendência é de que as mães de menor renda tenham menores possibilidades de levarem adiante algum tipo de tratamento – contribuindo para o perpétuo girar da trágica roda do sofrimento emocional e carência material.

Nós, enquanto coletivo que busca fazer nossa parte para minimizar as sequelas de situações difíceis, sabemos da importância de disponibilizar todo e qualquer apoio a essas mulheres – ainda que não na intensidade que gostaríamos, dadas as nossas próprias limitações.

Mas antes das soluções vêm os olhares – e olhar para o próximo de uma forma mais solidária é o passo anterior ao da nossa transformação.

1. Valor Econômico, edição de 15.05.26, “Coloclar a culpa dos problemas só no professor é injusto, diz chileno”.

2. Folha de S. Paulo, edição de 17.06.26, “Desigualdade de gênero no trabalho e demanda em casa geram esgotamento)

3. Valor Econômico, edição de 19.06.26, artigo de Naercio Menezes Filho intitulado “Saúde mental das mães e desenvolvimento infantil”.