Segurança Alimentar

Ao contrário do que se poderia supor, o apoio a famílias vulneráveis, quando se trata de garantir condições mínimas de dignidade material, não é providência que condene eternamente alguém a depender disso para viver.

Sabe-se, por exemplo, que 2/3 dos adolescentes que, há aproximadamente dez anos, pertenciam a famílias beneficiárias do Bolsa Família não dependem mais do programa¹. Nada mais esperável: não é possível imaginar que uma criança possa ter algum aproveitamento escolar em um ambiente no qual a próxima refeição nada mais é do que uma incerteza – e se uma necessidade básica não é atendida, o que se dirá das outras que lhe são subsequentes.

Ajudar funciona – e quando se tem notícia de que, no Estado de São Paulo, um terço das famílias possuem crianças menores de 10 anos que sobrevivem apesar da insegurança alimentar², o ato de ajudar é que passa a ser o gênero de primeira necessidade.

E se a ideia for ajudar quem mais precisa, é aqui que a presença do nosso Coletivo se faz mais relevante: na trágica fila das vulnerabilidades, as mães solo estão no último lugar.

Em uma época em que os recordes do número de feminicídio e agressão à mulher parecem ser a triste marca de uma sociedade doente³. são as mães solo as que mais sofrem – já que são elas que têm as menores chances de alcançar algum tipo de estabilidade financeira, porque, além da conhecida desigualdade salarial, empurra-se-lhes a responsabilidade integral pelo cuidar dos filhos e pelo buscar do dinheiro⁴.

Carência material, sobrecarga invencível de uma mãe sozinha e evasão escolar: está dado, no entender de alguns, o caminho para a tragédia social⁵ - a se desdobrar em múltiplas proporções.

Porém, quando nos empenhamos para contribuir com a dignidade alimentar de alguém, sabemos que nossa boa prática se multiplicará na mesmíssima proporção – com a tranquilidade da mãe que trabalha, a esperança da criança que estuda e a ajuda que, um dia, ela replicará. Cada centavo de vida que damos, é um centavo que nos agraciará.

Ajudar faz bem, principalmente a quem ajuda – porque alimentar alguém faz de nossa alma um lugar de maior segurança para nós mesmos.

Thais Cassapian

¹Folha de S. Paulo, edição de de 14.12.25, “70% dos adolescentes do Bolsa Família saíram do programa desde 2014”.

²Folha de S. Paulo, edição de 16.10.25, “Má alimentação ameaça o futuro das crianças e do Brasil”, artigo de Raul Cutait, Marcos Kisil e Aracélia Costa.

³Folha de S. Paulo, edição de 31.12.25, “SP tem maior número de feminicídios e agressão a mulheres de sua história”.

⁴Folha de S. Paulo, editorial da edição de 10.10.25, “Mais tarefas domésticas, salário menor”.

⁵Folha de S. Paulo, edição de 22.11.25, entrevista com a juíza Vanessa Cavalieri, sob o título “Tráfico, para eles, não é crime, mas trabalho, diz juíza da única vara no Rio para delitos de jovens”.

O Coletivo de Apoio à Maternidade Solo, atualmente, apoia aproximadamente 150 famílias lideradas por mães solo – a maioria, com crianças pequenas. Impactamos a vida de mais de 500 pessoas.

Nossos kits, além de itens não perecíveis (como arroz, feijão, leite integral longa vida, macarrão, biscoitos, sal e farinha, dentre outros), são compostos de ovos e hortifrútis.

Vale a pena ver nossos relatórios periódicos de atividades, que se encontram no site.